sábado, 18 de agosto de 2012

Sem título.



  E agora, Amadeu?
A cozinha é um silêncio gritante
A vida, já não sei se amadureceu
O impulso da diferença findou
Amadeu, não vivo mais, espante!
Era metáfora, modificaram-me à catacrese
Perdi o gingado, o samba, o dom...
Ah, humanos!
Dê fim ao meu aborrecimento!
E ceder o meu ínfimo lugar,
A um grande estacionamento.

OLIVEIRA, L. (Ninguém de interessante).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Parênteses de apresentação.

Colocou a chave na fechadura e movimentou o braço no sentido anti horário. O movimento era acompanhado de suspiros preguiçosos. Um pouco atrás, Cláudia apareceu sorrindo, eufórica.
_ Vamos para casa?
A garota retornou o olhar com um sorriso tímido.
_ Sim. Um minuto. – Pensou que gostaria de ir sozinha para casa naquele momento, entretanto não negou o simpático convite.
Depositou, por fim, a chave dentro de uma grande bolsa, estampada com texturas diferentes e bordados felinos. Comprou-a em uma feira comum, pois admirava o artesanato e a cultura popular. Claudia a aguardava, fitando seus movimentos por trás de um óculos quadrado e armação colorida.
_ Seus gatos estão bem? – Claúdia tinha um apego exagerado por animais. Talvez isto acontecesse pois a senhora avultada tinha grande aversão à solidão. Aliás, os medos de Claudia eram proporcionais ao apego animal.
_Estão bem. Crescem rápido. – Lena tinha costume de olhar o céu. Fixou a vista no horizonte e admirou o final da tarde. Nuvens esparsas, bordadas em um grande tecido amarelado que cobria o céu. Movimentos circulares do vento, encaminhado das montanhas do interior paulista, levavam as nuvens e as bolsas das trabalhadoras. Lena se perdeu em tantos pensamentos que acabou esquecendo de completar o ato de “boas maneiras” e prosseguir o assunto com a companhia de caminhada. Limitou-se a ouvir o que Claudia dizia. Até o presente momento, a senhora falava e se encaminhava para uma conversa com tanta agilidade como garfadas gorduchas em um prato de macarrão.
_ Contei a você que meu filho virá para cá na sexta feira? – Seu comentário foi finalizado com um grande sorriso materno.
_ Que bom. A vida é assim. Alguns vão e outros virão. – Completou a garota dos cabelos escuros desarrumados. Seus fios, levemente ondulados, terminavam na altura de seu queixo redondo. Não havia muita simetria em seu rosto.
_ Já está terminando os preparativos para a mudança?
_ Sim, quase tudo pronto. A viagem foi marcada para semana que vem. – Pensou no por quê de estar desconfortável. Agarrar a estrada com braços firmes auxiliaria em uma posição mais forte e determinante.
_ Acha que se adaptará facilmente? – Questionou Cláudia com olhar de anciã, caminhando sobre os pequenos paralelepípedos da rua pública de uma cidade pequena.
_ Espero que sim. – Sorriu com certo sentimento infundado. A verdade era que não tinha conhecimento de causa, não possuía experiência emocional. Era apenas uma garota de 17 anos saindo de casa. Tempos decisivos viriam, acarretariam responsabilidades tumultuadas como uma tempestade cheia de trovões.
Lena olhou mais uma vez o céu, que agora continha pequenas manchas escuras no além. Uma andorinha cortou o manto amarelado como uma tesoura corta um tecido de seda. Ágil e sagaz, a andorinha desapareceu ao abraçar a ventania. Lena filmou, arquivando as imagens que se sucederam diante de sua íris ocular. Percebeu, portanto, que as andorinhas vão, porém voltam. Simpáticas demais para sucumbir, reservadas demais para demonstrar.