sábado, 21 de dezembro de 2013


21 de dezembro de 2013.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

É difícil ser Helena.



Essa moça e seus longos cabelos encaracolados, frisados, desengrenados, pintados de dourado. Essa moça de olhos claros perdidos, cobertos por folhas de hortelã, transparecem um frescor de liberdade. Contudo, as mãos, finas e rosadas, prendem seu desejo, controlam seu livre-arbítrio. Elas se fecham em si mesma, dominam o desejo.
Essa moça brilhante é a culpada por todo o infortúnio do nome Helena. Coitada, creio eu que não foi sua vontade. Aliás, de vontade própria Helena de Tróia pouco sabia. Dominada pelo povo de cima, empanturrados de ambrosia, pouco fez por si própria. No entanto, aquilo que fez, foi intenso. Deixou seus passos na areia de tempo, de tão profunda que foi sua pisada. Seu rastro pousou em mim como um esporo de uma planta. Cresceu como uma erva daninha e agora as raízes estão profundas demais. Não há como arrancar, dizem os trabalhadores dos cartórios.
Agora é tão difícil ser Helena. As pessoas esperam muito das Helenas. Se a beleza não for seu forte, é necessário uma personalidade sagaz. Caso contrário, não será digna do nome.
Helenas precisam pular peladas em cachoeiras. Helenas dançam como ninfas. Helenas atuam nas telas do mundo audiovisual. Helenas são descabeladas, são teclas agudas de um piano. Entram na cabeça, refazem um imaginário. Helenas são sonhos repetitivos. Carecem de atenção nos assuntos, pontuando sua opinião vigorosa. Helenas precisam tirar o fôlego das pessoas.
“_ Teu nome é Helena? Que bonito! Eu adoro esse nome...”
Picada pela maldição desde a primeira vez que senti o oxigênio externo entrar em meus pulmões, eu nada faço de esforço. Quieta no meu canto, vou dominando o espaço que acredito ser pertinente. Me exponho o necessário, não me mudo, não me deixo levar. Criei um muro em volta de mim, não quero luxo, não quero atenção. Esse nome pra mim é uma praga.
Não sou musa inspiradora de Manoel Carlos. Não revolucionei ninguém nem nada. Nenhum homem quis morrer por mim. Ninguém se derreteu na minha beleza. Não sou digna da referência histórica da Vênus humana.
Mas sabe? Me sinto sortuda. Aquelas mãos presas na pintura, elas não são minhas. Sou a primeira Helena livre que conheço.
Desculpe Helenas e homens apaixonados, mas de intenso, só minhas palavras.

“_ Teu nome é Helena? Que bonito! Eu adoro esse nome...

_ Eu não gosto muito não...”

domingo, 16 de junho de 2013

Na reunião dos gênios.


Noutra noite, houve a decisão;
Hora de criar o invento
Foi necessária a divisão
Dos maiores gênios, ouviu-se “aceito”.
Foi entregue a missão de criar
O homem perfeito para toda mulher amar.
Saíram apressados, nunca mais os vi
Mas agradeço até mesmo ao bisturi
Que um dia o criou.

Nesse mesmo dia,
Michelangelo resolveu o esculpir
Da Vinci resolveu o pintar
Nietzsche resolveu o instruir
E, de um céu cheio de estrelas,
Carl Sagan veio abençoar.

Invasora, recebi bagatelas
E me pediram para nunca mais voltar,
“Minha querida,
Sonhes alto, mas nunca tão alto!
Por mas que te agrida,
De tuas atitudes, nenhum salto,
Nada te farás alcançar...
Humana eres, sempre serás!

`Por que sonhar?”

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Onze tempos verbais, um infinitivo e uma história.



Capítulo I – Imperativo negativo
                      
Vermelho. Vermelho era uma cor bonita. Não, era muito vulgar para um jantar com os pais. Azul, azul lembra pessoas refinadas, como a família Kennedy saindo para um passeio no barco, branco e leve, cortando como faca um pano chamado mar. É, perfeito. Só que o vestido azul não tinha par quando o assunto era pés calçados. Preto, preto lembra gente resolvida, como uma cantora de jazz da Broadway, com seus imensos colares de pérolas. Uma pérola para cada amante frustrado. É, melhor não. Ela era muito nova para ser uma mulher resolvida. “Então, o que acha de um vestido verde?”, ela pensou. Enfiou sua cabeça pequena no guarda roupa, cujo fundo já estava quase vazio, já que todos os trajes rejeitados já estavam espalhados pelo chão.
_ Mãe! – O pequeno grito se espalhou pelo corredor – Onde está o vestido verde de estrelinha que a tia Rosana me deu?
_ QUÊ? – Essa era a resposta mais óbvia. Maria Laura sempre gritava para sua mãe, mas sua mãe nunca lhe ouvia, não importasse o que estivesse fazendo. Jogando cartas com a Rosana, compradora compulsiva, lavando roupa ou até mesmo cantando no karaokê. A mãe de Maria Laura adorava cantar no karaokê.
_ O vestido verde, mãe! Aquele da tia Rosana! – completou a garota com a mão delicada na testa, olhando para aquela bagunça procurando alguma esperança ou talvez alguma coisa que lembrasse a cor da esperança.
_ Sua tia Rosana já comprou tanto vestido para você, de sorte que se eu me lembrasse de algum deles, já vou ter feito muito esforço para ainda lembrar onde ele está!
Caso sua mãe não o achasse realmente, poderíamos já o colocar na famigerada lista “Coisas Sebastianicas” de Maria Laura. Era fácil para Maria Laura perder coisas. A borracha que cheirava melancia e, quando ela apagava algum de seus rabiscos bobos, o cheiro parecia de morango. O nome da borracha acabou sendo “Melango”, doado generosamente por Jonas, o melhor amigo de Maria Laura. Pois um dia, a fragrância de Melango se perdeu por trás das cortinas da vida, visto que Maria Laura procurou trás de suas cortinas e Melango também não estava lá. Aliás, Melango deu suas mãozinhas cheirosas para Juca, o pen-drive, e juntos tiveram um caso, distante, distante, num reino feliz onde as coisas que possuem nome também possuem vida. O filho de Melango e Juca foi um lindo dispositivo de memória que sem querer apagava os arquivos depositados.
A lista de “Coisas Sebastianicas”, isto é, A lista de D. Sebastião, tinha muitos outros objetos desaparecidos com sua devida recompensa, escrita ao lado do nome. Quem achasse Melango, por exemplo, ganhava metade da borracha. Acho que deve ser por isso que Melango nunca mais quis aparecer. Provavelmente, o rei do reino de Melango era D. Sebastião, cuja promessa era retornar ainda em 1578 ao trono de Portugal, porém não aconteceu. Talvez as coisas de Maria Laura ainda voltem, assim como os portugueses ainda aguardam a volta do rei desaparecido.
Toda essa história foi para que você aguardasse enquanto a Maria Laura jogava CDs, DVDs, livros e álbuns para os altos enquanto buscava o vestido verde. Neste momento, Maria Laura está escrevendo o nome do vestido na sua lista, pois já se cansou de procura-lo. O vestido verde recebeu o nome de “A Dama verde”, e a recompensa do caçador que o encontra-lo será um não tão raro anel de plástico.
A mãe de Maria Laura a viu com um vestido branco, alça fina e com um laço na cintura, presente da Tia Rosana também. A mãe de Maria Laura ainda gostaria de saber se a Tia Rosana já tinha pagado esse vestido quando Maria Laura agarrou sua bolsa em cima da mesa.
_ Estou indo ok? Não vou demorar, prometo! – Ela deu uma leve piscadinha de fidelidade, no entanto a mãe não acreditou muito.
Desculpa, você estava pensando que ela ia sair com os próprios pais? Sou um péssimo narrador de histórias, desculpe, me perco e não consigo mais me encontrar onde eu estava. Contrariamente a mim mesmo, estou tendo que contar isso a vocês, leitores, mas para ser sincero, gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa, como assistir um filme qualquer um jogar um jogo no meu vídeo game velho e sem graça. É provável que essas histórias me façam ter um raciocínio melhor para poder falar sem me perder. Bom, a Maria Laura me pediu e eu estou tentando. Praticando. Jogando bolas de papel no chão. Escrevendo. Procurando mais verbos no gerúndio para conseguir mostrar o quão longa essa história é para mim.
A Maria Laura estava indo jantar comigo. Bom, não exatamente comigo, porque eu ainda não tenho dinheiro suficiente para leva-la para jantar. Meus pais e eu estávamos levando-a para jantar. Isto era um saco.
Eu a vi saindo e acenei. Aquele meu velho aceno idiota que faz com que minha cabeça mecha demais e meu óculos quebrado fique torto. Sim, meus óculos são fora de moda, tortos e quebrados, dado que uma pessoa subordinada ao azar como eu não poderia ter óculos decentes para impressionar alguém.
Ela andou com os olhos para baixo e as mãos nos bolsos, como fazia frequentemente. Nós só fomos comer um pizza mesmo, e neste dia não aconteceu nada de interessante.
Além do mais, minha família era como qualquer outra. Quer dizer, meus pais estarem juntos há vinte anos é uma grande coisa, mas nada também de se tirar fotografias para calendários fofos e manipulados que recebemos após os dias de festas, já que nesses dias todos estão muito bêbados para acertarem o foco de algo, mesmo se ele for automático.
Maria Laura tinha graça. Maria Laura tinha histórias para contar. Ótimas histórias, mesmo que todas fossem tão verdadeiras como mentira de D. Sebastião, a qual Maria Laura acredita e sempre irá acreditar.
Maria Laura tinha um segredo. Este, ela me confidenciou há pouco tempo, sendo aquele o motivo de eu ter iniciado essa narrativa.
Maria Laura gostava de escrever coisas nas paredes velhas das ruas. Segundo a garota de cabelos extremamente cacheados me contava, escrever em paredes já sujas não era pecado, uma vez que iriam ter que pintar de qualquer forma.
O sol estava forte aquele dia e minha vista, como todos os dias, estava defasada – problemas genéticos. Contudo, Maria Laura não ligou e persistiu em escrever algo na parede, em um lugar pouco esplendoroso para um cenário de romance. Carros passando como monstros, motos como serpentes, ruas sujas e cenário cinza.
Maria Laura não escreveu nada. Ela apenas desenhou alguns corações pintados. Quando a garota com o mesmo uniforme que eu se dirigiu para o caminho de casa, eu fitei os corações. Corações solitários. Achei que eles precisavam de palavras.
Abri a mochila e meti a minha mão dentro. Ela coçou o limite, roçou o pano velho e tateou objetos. A caneta com ponta suculenta por tinta, pois já tinha alguns anos de tinha, demorou a pegar. Todavia deu para terminar o primeiro escrito da semana.
“M.L tem um segredo. Mas não confundais vós! Sou dela apenas porta-voz.
Oh, M.L, não confundas tu! Pois não há segredo que se possa esconder de um fiel narrador onipresente, que na verdade de nada sabe, mas finge de forma tão maravilhosa que os passos que eu disse que você deu estão todos neste chão de letras, nesse caminho de orações, tanto gramáticas quanto religiosas, nesse mapa que se chama texto. Oh, M.L, sei que possui esse mistério. Mas não há nada que tu não sabes que soubera antes. Sou seu narrador e a mim deves contar tudo que sabes, pois antes de narrador, fui amigo teu. Finjo tão bem que sua história é esta que conto agora que posso jurar que os corações ainda estão por lá, verdes como o vestido que se perdeu na terra de D. Sebastião.
Oh, M.L, não confundirá mais nossa história, pois agora é nela que eu escrevo e ela mudarei. E tu, meu leitor, serás o confuso!”.
Quando terminei, inclinei minha cabeça. O escrito tinha ocupado toda uma parte da parede e minha caneta era um cavalo morto na guerra que serviu sofrendo até não ser mais preciso. Maria Laura já não estava do meu lado. Era tão esquecida que não se lembrou de mim quando seguiu para casa.
O sol ainda estava forte e as árvores, verdes. A calçada permanecia suja e seus traços acompanhados por chicletes no chão. E Maria Laura ainda tinha um segredo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Sua companhia até o fim da eternidade.


Sua companhia até o fim da eternidade
(Lena Oliveira)


Ação ou efeito de misturar
Coisas que não se misturam
Água e óleo se acalmam
Mas não vão se agrupar
Separados pelo destino
Ordem do divino
Se fervem, se queimam
Só borbulha a dor
Ódio desse autor
A essa dúvida maldita:
Ou acatar a linha
Outrora já escrita
Ou cortar essa daninha
E gritar que bem dentro do peito
Eu gostaria de ser seu eleito
Sua companhia até o fim da eternidade.