domingo, 12 de janeiro de 2014

domingo, 5 de janeiro de 2014

Um dia.

Um dia, acordei com os passos de pássaro na minha janela. Nunca tinha visto pássaro mais magro e sofrido como aquele em minha janela. Parecia que ele vinha avisar o pior.
Não tinha pão no armário. O queijo estava acabando. Já que era domingo, o dia em que as coisas andam normalmente morosas, decidi que tinha tempo para passar em uma padaria. No domingo, sempre há tempo.
As minhas chaves provocam um barulho agudo em meu bolso quando pisei as escadas para fora do meu prédio. Esse barulhinho penetrante de um metal frio não foi notado pela senhorinha desconectada que passou por mim, nem pela atendente maquiada da padaria. Ela era loira, mas acredito fielmente que seria muito mais atraente se toda aquela massa colorida se desprendesse de seu rosto. A moça de cabelos com pouco pigmento não sabia que uma nuvem branca é muito mais graciosa do que uma nuvem toda manchada de acinzentado, pronta para chover.
Pedi três pãezinhos brancos. Paguei e caminhei para a porta, quando algo me impediu. Havia uma moça no meu caminho. Cabelos castanhos claros, bem lisos. Sobrancelhas bem finas apenas contornavam olhos esverdeados tão lúcidos e fortes que me impediram de pensar por um momento enquanto a comtemplava. O rosto se complementava com um nariz redondo e angelical, formando uma antítese completa com a boca carnuda e sensual.
Era fácil entender o porquê de ela estar na porta da padaria na esquina da minha rua. Devia estar com fome, posto que o vestido estava manchado, rasgado e não era digno de tamanho ser angelical. Eu a vi estendendo a mão, pequena, clara e encardida, pedindo auxílio. Não foi difícil conhece-la. Eu a ofereci um pãozinho quente e um café carioca. Ela logo se derreteu por eu estender um pouco da minha atenção. Falou da vida, de como foi parar na rua e eu contei que trabalhava como contador e também tinha simplicidade nas roupas, na casa, nos passeios e na minha essência de filho da classe média. Ela riu e disse que, na verdade, tinha estudo, mas algo aconteceu e não pôde continuar.
Alguns dias passaram, mas sempre a encontrava em uma pracinha. Minha rotina foi se transformando por ela. As minhas chaves faziam sons agudos enquanto descia as escadas. Atravessava a rua e chegava no nosso primeiro ponto de encontro, a padaria alaranjada e ordinária. Passava algumas ruas e chegava na praça em que ela estava. Perdia algumas horas com papos e depois ia embora.
Um dia, ela olhou para mim e soltou timidamente:
_ Me deixa conhecer sua casa?
Eu a levei no mesmo dia. Ela subiu as escadas sem fazer som algum. Nem mesmo a sua respiração enfraquecida ou seus passos sem qualquer vigor conseguiam soltar qualquer emissão de sua presença.
Peguei as chaves e elas soaram os finos toques musicais. Fiz o movimento e estendi toda a minha sala para ela.
_ Se eu entrar, você não vai me deixar sair mais?
_ O que você disse, querida? – respondi, sem compreender.
_ Me diz que você não quer que eu vá embora.
_ Não quero que você vá...
Um corpo como Atlas caiu sobre mim. A minha visão levou pinceladas fortes de preto e os ossos se tornaram areia.

Um dia, acordei. De fato, acordei com minha alma, mas meu corpo já não me pertencia. Tinha completa noção dos meus sentidos primários. Conseguia ver o teto de um hospital com suas cores tradicionais antibacterianas, isto é, um azul claro triste e um verde formal. Eu conseguia mover um pouco para ver a presença de meus familiares. Senti que a conversação partia de uma tristeza suspensa no ar, uma vez que tal familiar entrou em coma sem ninguém compreender direito o que havia acontecido. O tal familiar era meu conhecido. O tal familiar era eu. Contudo, da moça que eu ajudei, ninguém nunca comentou e também nunca ninguém viu.
Um dia, subitamente, entendi que ela era a minha médica, mas também a minha enfermeira. Ela era a pessoa que me medicava, mas também a pessoa que me fazia exames. Ela era a moça que tirava as flores mortas do meu quarto. Ela entregava as minhas cartas aos familiares. Ela era a faxineira que limpava o chão. Ela era a mãe do meu companheiro de quarto, mas o seu rosto também estava impresso no corpo da irmã do menino com tumor. O menino com tumor também se transformava em seu rosto demoníaco. Ela era simplesmente tudo que eu conseguia enxergar. O poder da minha musculatura, a solidez da minha mente, o impulso da sinapse. Tudo a pertencia e a alimentava. Estava em todos os lugares.
Agora, a única conversa que eu tinha era um pequeno diálogo também com ela.
_ Liberte-me!

_ Você disse que não quer que eu vá embora... Nunca mais.