segunda-feira, 31 de março de 2014

Ai ai, Drummond.

Palavra reprimida no peito
é cama
para o mal perfeito.

No entanto, falar
sem pensar
é acordar um monstro
que não se reprimiu.

Eta vida besta, meu Deus.

(Lena)



quinta-feira, 13 de março de 2014

Sobre o Rolezinho.


“[...]
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.


E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!”
                                   (Castro Alves)


Não há como falar dos recentes acontecimentos sociais no Brasil sem antes estabelecer uma relação com o nosso passado. Castro Alves, autor do trecho acima, pertencente ao poema “A canção de um africano”, foi um grande defensor da abolição no século XIX em nosso país. No entanto, mesmo com todos esses anos que se passaram, os conflitos raciais e, principalmente, sociais ainda estão afligindo a população brasileira. Por meio da exploração do trabalho de alguns e o aumento da desigualdade de renda financeira, podemos observar o poder econômico na mão de alguns enquanto outros estão a mingua. Logicamente, esse estado social gera fenômenos interessantes a serem discutidos, sendo o mais recente o fenômeno jovem nomeado como “rolezinho”.
Segundo da enciclopédia online Wikipedia, “rolezinho” seria um neologismo que classifica um encontro simultâneo real de centenas de jovens. Este encontro, por sua vez, é marcado pela internet por meio de redes sociais. Para que esses encontros possam funcionar, é necessário um espaço físico relativamente grande para sustentar todos esses jovens. Entretanto, o conflito entre tráfico e polícia nos morros urbanos, a repressão social e policial e a violência de ambos os lados conflitantes afastam os jovens das áreas em que vivem, a fim de não apenas garantir segurança, mas também o conforto e luxo que nunca tiveram. O produto é o deslocamento dos pobres para as áreas “semi-privadas” – já que são proibidas apenas para aqueles que não possuem poder de compra - povoadas pelos mais bem remunerados, ou seja, os centros comerciais ou shoppings. Conhecidos por estabelecerem uma ligação real entre consumo, segurança e luxo, os shoppings concentram pessoas que possuem poder de compra e também garantem aos seus frequentadores um status social de riqueza, almejado dentro de uma sociedade capitalista. Estabelecendo essa definição dos centros comerciais e fazendo uma ligação  com a camada mais baixa – e mais lotada – de nossa população, é notável que os pobres não “poderiam” frequentar os shoppings, já que não possuem poder de compra. O rolezinho, portanto, veio para enfrentar essa realidade traumática desses jovens de periferia, cujo objetivo seria atacar de frente essa ideia de separação social de espaços dentro da cidade. Afinal, se o espaço é aberto para consumidores, e com a facilidade de crédito eminente em nossa sociedade, por que um pobre da favela não poderia facilmente realizar um compra em um centro comercial? Desde um pequeno lanche até o mais caro tênis, isso se torna cada vez mais possível para a classe média. Tudo seria muito fácil, porém, com a visível perda de espaço, a alta sociedade, em geral opressora e exploradora, começa a exercer seu poder com o objetivo de não perde-lo. Assim, vemos policiais atacando jovens com aparências simplórias, mesmo que estes não tenham praticado nenhum ato violento ou algum tipo de vandalismo. Vemos também descaso dos lojistas com esse público ao invés de tentar integrá-lo ao sistema, o que, em minha visão, seria muito mais interessante, já que aumentaria o mercado consumidor.
Com todas essas ações, novamente a camada social mais baixa é oprimida e proibida de frequentar lugares em que poderiam desenvolver suas atividades, já que, se os ricos podem ir as suas baladas caras em São Paulo, por que os pobres são julgados por frequentarem os bailes funks nas garagens dos shoppings? Será que os jovens pobres são tão mais inferiores que os jovens ricos? Por que uma balada pode ser considerada cultura pop enquanto o funk é, por muitos, considerado uma batida que nem pode ser nomeada como música?

É hora de refletir que a cultura da sociedade mais baixa também é uma cultura digna de estudo e respeito e reflete, muitas das vezes, na realidade a qual esses jovens são submetidos. Não que toda ação jovem seja justificável e deva ser defendida, mas a completa repressão deve ser deixada, muito bem amarrada nos troncos, nas antigas senzalas tão temidas por nós, cidadãos de bem.