sábado, 19 de abril de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sua visita!

E aí, Leitor, como andas? Vou abrir a porta aqui para você, por favor, suba, entre e sente-se. Quero conversar.
Eu tenho sentido falta de amigos imaginários. Quando criança, eu não me lembro de ter tido amigos imaginários, mas eu tinha a plena convicção de que os animais conseguiam me entender e eu gostava de tentar falar com eles. Acho que isso pode ser considerado um amigo imaginário, não é? Pois bem, estou sentindo falta de falar com alguns cachorros nas ruas. Penso ainda que, nas ruas estressadas, neuróticas e perigosas de São Paulo, se cada pessoa, cheirando a fumaça queimada de dor da metrópole, usasse cinco minutos do seu dia para conversar e afagar um cachorro, o nosso mundo seria um pouco menos negro.
Infelizmente, eu não tenho, nesse momento, nenhum cachorro pra jogar um papo fora, então terá que ser você mesmo, Leitor. Eu espero que a gente possa ter um momento tranquilo agora e que você queira tomar um café comigo. Para que isso aconteça, Leitor, preciso que você tenha um rosto familiar para mim. Não consigo dar café para uma entidade que não existe fisicamente. Portanto, utilizarei minha imaginação para fazer você e você utilizará seus dons de interpretação para ser quem você não é. Só dessa vez, Leitor, vai ser divertido, prometo. Depois você pode voltar a ter a vida medíocre que nós todos temos.
Quero que você seja um idoso satisfeito, cujas mãos deformadas de calos trabalhadores tenham te dado experiência e muita inteligência. De forma metafórica, claro, Leitor, porque eu quero que você tenha sido feliz. Não quero que você tenha memórias ruins do seu trabalho. Você ainda é saudável e passeia com frequência, aproveitando seus dias de uma aposentadoria adequada. Sua família o ama muito, e você agora possui filhos, netos, casa, cachorros, gatos, fotografias, lençóis usados e solidão. Mas não tem problema, não, Leitor, porque você sempre vem me visitar e aí eu tento conter esses dias em que você não a tem mais. Eu espero que possa preencher um pouco esse seu espaço imaterial. Eu gosto quando você mostra a sua pele enrugada pra mim, solta um sorriso já amarelo, passa a mão na cabeça em que já existiu uma vasta cabeleira e me dá um abraço fraco daquele que já teve grandes músculos. Eu gosto de olhar pros olhos verdes oliva, objeto molhado, calendário de lágrimas.

Hoje, você resolveu deixar de lado um pouco as memórias dos bondes de São Paulo e me perguntar como estava minha vida, porque você se interessa e gosta de mim. Solto um sorriso porque quero acreditar nisso, mas não tenho certeza.
Bom, a minha vida anda, atualmente, como uma criança em férias escolares. Alguns dias são movimentados como um jogo de bola na rua da avó e outros são resumidos em lençóis, travesseiros e muitos sonhos, diversos, extensos, reais e imensos.
Queria o contar, Leitor, com muita felicidade de que todo aquele meu trauma passado foi-se embora com as águas do verão, exatamente do jeito que você tinha me dito, de que iria passar e eu iria conseguir esquecer. Você sempre sabe o que vai acontecer, Leitor, espero ser assim um dia também.
Hoje amo alguém de forma sincera e feliz, e tenho que dizer que não esperava que fosse tão rápido. Achei realmente que ia demorar alguns cem anos de solidão, mas engraçado que o destino nunca me deixou ficar sozinha. Estou mal acostumada e tenho medo de algum dia ele mudar de ideia.
Depois de terminar o gole de café, você diz que está feliz por mim e pergunta sobre o moço. Eu te conto alguns dias que passei ao lado dele. E aí, paro de falar.
Você me pergunta o que aconteceu. Eu te digo que, há alguns dias, sinto algumas coisas estranhas. Você me questiona. Acredito que você deva achar engraçadinho a forma como eu ainda sou inexperiente perto de você.
Ultimamente, Leitor, por realmente ter terminado as tarefas primárias do amor, ganhei como recompensa alguns sentimentos novos que nunca tinha sentido e nunca tinha parado para refletir. Todos eles são consequências das novas experiências – mais maduras – que tenho recebido.
Alguns já me eram conhecidos, mas em meios diferentes de relacionamento. Medo de perder alguém, medo de decepcionar alguém. Mas você sabe, Leitor, que a meu jeito de ser é muito forte e eu dificilmente consegui apaga-lo por alguém. Acho que as pessoas se acostumaram e gostam de mim assim.
Hoje em dia, sinto um medo de perder muito mais real, medo que a felicidade acabe. Agora consigo receber os avisos de Alberto Caeiro e tentar sentir mais as sensações, as visões que meus olhos me oferecem, o toque da pele.
Outro sentimento que nunca havia sentido antes era um forte sentimento de posse de outra pessoa. Aconteceu poucas vezes, graças ao bom Deus, mas esses poucos números de chances deram espaço a grandes quantidades de horas para reflexão.
Sentir ciúme. Coisa engraçada essa. Realmente, depois de senti-lo, Leitor, percebi que não faz mesmo meu feitio. Eu me sinto idiota de senti-lo, mas não julgo quem o sinta.
O ser humano é tão altamente complexo que, ao mesmo tempo em que sinto um grande receio de perdê-lo, também sinto um alto desprendimento de deixa-lo ser feliz. Pare de rir de mim, Leitor! O senhor quer mais café?
Desde muito nova, criei na minha cabeça que somos altamente substituíveis. Já viu aquele vídeo do Tim Minchin que diz “Se eu não tivesse você, eu teria outra pessoa”? Se não, depois eu te mostro, Leitor.
Pois é, ele não está errado e muito menos sendo arrogante em afirmar isso. É simples, se eu não o conhecesse, outra pessoa se encarregaria de fazê-lo feliz, pois não sou a única pessoa no mundo capaz de fazer pessoas felizes. Acredite, você não é a única pessoa bonita nesse mundo, haverá outras plenamente mais atrativas que você. Não estou dizendo você para você, Leitor, você em sentido genérico, você me entendeu.
Você não é portadora de uma chave especial em que apenas você poderá abrir a porta do coração de outra pessoa. Isso não existe. Você não é o único que poderia fazê-lo feliz na cama. Você simplesmente não é único em quase nada. Então, não há muito que temer, na verdade, mas simplesmente em aceitar de que a pessoa pode ser feliz, e muito feliz, sem você, se um dia ela precise.
Dói um pouco pensar nessa maneira, mas depois as coisas ficam tão mais fáceis e leves, Leitor! Porque, se a pessoa está ao seu lado agora, é o seu momento para serem felizes. Então percebo que há de se aproveitar e parar de perder tempo com essas mesquinharias. Você será único apenas nas memórias que a outra pessoa tiver de você. Então faça com que essas sejam as MELHORES possíveis, porque apenas isso fará de você uma pessoa especial. As memórias, as fotos, os momentos.
Aliás, acho que é um bom momento para dizer a ela que a amo e quero vê-la leitor. Você pode ir comigo até ali na padaria? Irei comprar uns créditos para falar com ele. Pega as minhas chaves, por favor, ali em cima da mesa.

Obrigada por me acompanhar, Leitor. Eu tinha sentido saudade de você.

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Vídeo do Tim Minchin