segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Será que se lembra?

Será que ainda lembra-se de mim?
Saí do Jardim Alto Alegre mais cedo. Embora eu saiba que as contas podem ser pagas pela internet, ainda tenho uma confiança maior de ver o comprovante sair da máquina no banco. Coisa de velho. Então, ainda me faltava algumas contas para pagar e, depois, ir ao meu trabalho medíocre. Pelo menos recebo o bastante para manter meu apartamento e as minhas contas em dia, sozinha. O meu país já não me ajuda a manter consumismo e luxo. A notícia de aumento de salário é como ouvir que viram Saci Pererê no meio do mata.
 Os odores de chão limpo com álcool barato e ar condicionado do banco sempre me deixam enjoada. Um dia, quando ainda o tinha, até achei que fosse gravidez, depois me acostumei. Chão limpo de álcool, ar condicionado e poeira, carro ao sol, nicotina, perfume barato e ônibus no verão assolador. Eu sempre fui muito sensível com odores perfurantes. Enquanto pensava nesses assuntos banais, apertava as opções na máquina. Coloca cartão, tira cartão, sacar, pagar conta com conta corrente, extratos... Tudo seguindo o ritmo do dia, aqueles detalhes que ninguém quer saber e eu também não tenho mais ninguém para contar essas baboseiras.
A porta de vidro abriu. Quando notei, vi o abismo. Lá estava você. Nem sabia que ainda frequentava o mesmo banco que eu. Achei que tinha tentado me cortar de todos os jeitos. Eu também tentei te cortar. Mas é difícil.
Eu sei que você me viu antes de entrar, por isso está encarando o chão e já foi direto para a máquina. Nem sequer acenou. Eu cortei o meu cabelo e mudei a cor, emagreci um pouco mais, mas eu sei que você me reconheceu, porque eu te reconheci. A sua barba grossa, os mesmo óculos, a mesma piscada grossa para entrar em outro ambiente.
Será que você se lembra das mesmas coisas que eu? Às vezes, me pergunto, pois tudo ainda é tão fresco. E ácido, um suco de limão que escorre em minha garganta.
Eu tinha o costume de abrir um pouco os olhos, consumir a luz e os contornos, e ver para onde você estava indo, e depois voltava a dormir. Você sempre acordava primeiro e tinha receio de você ir embora. Todavia, seus  passos permaneciam e fazíamos um almoço caseiro. Apimentava sua comida, cozinhava meus legumes e você limpava a louça. Entre um prato e outro, um assunto cotidiano, um beijo rápido, uma risada comprometida. Gostava quando você passava a mão na minha cintura, brincava com o meu corpo. Será que você se esqueceu?
Dividimos anos juntos. Muitos anos. Sabia as suas manias, acredito que ainda devem ser as mesmas. Objetos sempre tinham o mesmo distanciamento, parecia até que você tinha medido a distancia dos copos com uma régua em um dia de tédio. Também não podíamos mudar coisas de lugar. Caso contrário, você me ligava perguntando aonde coloquei, mesmo estando na sua frente o tempo todo. Deixava uma meia do lado da cama caso ficasse com frio nas extremidades no meio da madrugada. Colocava a mão no meu corpo no meio dos seus sonhos.
Você odeia meu jeito orgulhoso e respondão, eu acabei criando birra com seu egoísmo. A gente não discutia com frequência, mas falávamos coisas duras e desnecessárias nas brigas. O sexo diminuiu e como ficávamos em quartos separados, uma chave de gelo acabou trancando os sorrisos, os segredos e os abraços dentro de nós. Viramos baús de romances inacabados. Quando senti a comodidade virando semanas, entrando na segunda e, sem descansar, virava na outra semana, sem chance de êxito, achei melhor terminar. Era melhor antes que algum de nós decidisse trocar por algo melhor. Iria doer muito. Será que você se lembra?
Permaneci na solidão. Já tinha te dito uma vez que apreciava minha própria companhia, e isso não mudou muito. Alguns dias de chuva com filme, me sinto sozinha, mas logo arranjo outra coisa para pensar. Eu sabia desde o começo que poderia viver sem ninguém.
Mas, na escuridão, ainda lembro. Ainda lembro seu sorriso com alguma pequena surpresa que consegui fazer, mesmo quando você ficava bravo de eu insistir em gastar minhas pequenas economias em bobagens para você. Ainda lembro quando você se levantava para fumar, e eu, mesmo contrariada, ia atrás de você, ouvir suas histórias, algumas repetidas já. Eu sempre ia atrás de você e você sempre vinha atrás de mim.
Você ainda se lembra da minha voz rouca e do meu cabelo bagunçado de manhã? Você ainda se lembra dos vídeo games, dos filmes? Você ainda se lembra das fofocas que tínhamos sobre nossos amigos? E quão íntimos eram os nossos segredos...
Já não creio que você se lembre. Nem sequer acenou.
Saí do banco com dinheiro a menos na conta e mais magoa no coração. E se esse texto soou inteiro clichê e brega, é porque a dor do amor é matar uma criança sufocada em seu próprio castelinho de areia. Construímos e destruímos juntos, mas ainda me lembro.
Será que você ainda se lembra?
                                               Rio Preto, 4 janeiro de 2017.




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