quinta-feira, 31 de março de 2016

Coisa engraçada esse negócio de natureza...

A natureza é uma coisa engraçada né? Faz algum tempo que estou sofrendo de um conhecido mal doméstico. Dizem que tem a ver com a limpeza dos sujeitos, mas defenderei minha lambuzada reputação. Sinceramente não sei o porquê, mas sofro de formigas no ambiente culinário, mas conhecido como cozinha.
Para começar o meu relato, preciso esclarecer que o final da tarde para mim é o período do dia em que a carência alimentar vem com a força do bico de uma galinha vendo o milho cair no chão. Saí furiosamente em direção ao armário da cozinha buscar alimento, mas encontrei formigas. Várias formigas, muitas formigas. Faziam trilhas paralelas, horizontais, verticais, desenhavam o quarto de Van Gogh com seus corpos enquanto riam de mim. Algumas ousadas faziam planos cartesianos no teto do recinto. Não tinha nem comida direito, mas as formigas estavam felizes pelo jeito. Com tamanha ironia dentro do meu próprio lar, a revolta bateu no fundo do meu âmago. Assim não dá, pensei. Arranquei com força, enquanto insultava a Mãe Natureza, todos os alimentos que estavam dentro do armário. Bolachas, e pães, e biscoitos, e pacotes de macarrão instantâneo, e pacotes de pipoca, tudo foi caindo pelo chão. Manchei um pano de álcool, limpei todo o armário e saquei a minha arma fatal. Aquela arma destruidora, temida, apavorante, assombradora com sua foto de um cadáver em decomposição estampada em seu rótulo... O veneno para formigas! Achei que só com o puxão do produto, todas as formigas iriam correr em debandada. Mas elas continuaram rindo da minha violência bruta. Quem esse animal tão pouco adaptado pensa que é, zombavam de mim. Não pensei nem duas vezes, esborrifei o produto como um perfume caro de uma madame que não tem dó de gastar sua fortuna. Pois sabem o que aconteceu? Morram todas no mesmo plano espaço-tempo. O plano cartesiano estagnou com odor forte de assassinato.
No outro dia, no mesmo horário, fui investigar a cena do crime. Lá estavam elas, todas elas, iguais. Mortas, você está pensando? Não, meu caro, estavam vivíssimas. Imortais, as malditas! Não pode ser, pensei. Só pode ser um pesadelo, lamentei.
Sentei solitária na sala pensando que era hora de abandonar o terreno. Elas venceram, tomaram a casa e todas as minhas coisas. “Os artrópodes dominam o mundo”, já dizia o professor de biologia. Não posso lutar com essas forças teimosas, nem os desastres naturais acabaram com essas pragas.
No entanto, me recordei que todo animal está presente em uma cadeia e todos possuem seus calcanhares de Aquiles, já diziam os professores de biologia, não é mesmo? Ao invés de utilizar uma arma tão bruta como o veneno produzido pelo homem, usarei o cravo, arma da natureza. Espalhei cravos por toda a cozinha. Nos buracos que elas saiam, agora está a flor ressecada e marrom, acompanhada de seu cheiro icônico de comida do Oriente.

Agora já não há mais formigas. Foram todas infernizar outro morador, talvez. Fiquei eu sozinha com a minha consciência, pensando. Por que então existem os venenos se o cravo já resolve o problema? A resposta óbvia me veio rapidamente, porque é a resposta para todos os problemas que a humanidade. Queremos resolver o problema do nosso jeito, achando que a Terra aos humanos pertence. Tão enganados confusos somos. Aquilo que a Natureza nos dá, ela nos tira com seus próprias maneiras. A força natural nos mostra todos os dias que nos quer como inquilinos, mas talvez não restará cômodos para nós se continuarmos querendo insistir em uma reserva eterna parasitária neste hotel imenso chamado Terra. 

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