domingo, 29 de janeiro de 2017

Uma dança para os desgraçados

Júlia agarrou o braço do pai. Era hora da valsa dos formandos. Aquele tapete vermelho, tantas vezes esmagado e poucas vezes higienizado, guiava mais uma turma para o salão de dança, desta vez todo decorado em preto e branco, alguns balões prateados bailando lentamente ao final do corredor.
            Estar mais uma vez em um salão de festas fez Julia dar um passo para trás, na doçura da infância. Júlia era grandalhona até demais, mas mesmo assim sua mãe sonhava em vê-la dançar ballet, como as meigas filhas do condomínio no qual morava. Comprar um collant foi constrangedor e Júlia não ficava bem de rosa. Na aula de ballet, ela era sempre o quarto lugar da terceira fileira, da direita para a esquerda, bem no cantinho do palco. Sua mãe precisava cerrar os olhos para ver seus bracinhos gordos balançarem descoordenadamente, mais para ganso do que para cisne. A desculpa para jogá-la perto das cortinas era que Júlia não se esforçava para chegar na primeira fileira e era bem mediana com tanto tempo de treino. O engraçado é que o desestímulo da professora magrela nunca constrangeu Júlia como constrangia a mãe da menina. Na verdade, Júlia gostava de dançar ballet e, para melhorar, gostava de ser a mediana. Não precisava treinar muito, não precisava estar presente todos os dias, ser sempre a melhor. A única necessidade era deixar o som perfurar os poros e oxigenar o sangue. Imaginar asas no lugar do tutu. E quando isso acontecia, Júlia se sentia pairar no ar, os pelinhos do braço em pé, uma leoa esperando para atacar uma zebra na selva, um meteoro que desintegrou na atmosfera terrestre e cai em pedaços no mar para nunca mais ser visto. Uma dádiva. Uma verdadeira dançarina, mas mediana, nunca a melhor.
            O tempo passou e Júlia prestou vestibular para bioquímica, porque quando o assunto era quantidade de mols, Júlia acertava tudo de primeira. Os quatro anos passaram rapidíssimo e Júlia não conseguiu continuar a dançar, até porque não ia levar a nada o sonho de ser bailarina. Era mediana demais.
            Contudo, lá estava ela. O salão de festa, aquele mp3 antigo de valsa mais uma vez, os espectadores esperando a turma 68 da bioquímica entrar. Ela puxou o pai quando a melodia teve início. Passos coordenados, o pai ensaiou com a filha dois dias antes, mas Júlia dança essa valsa desde pequena, no quarto, escondida, a plateia gritando seu nome. Era sua dança, era realidade. O piano ia crescendo tão espontaneamente que ficar na ponta do pé era necessário para não perder o compasso. O pai sorria porque era visível as lágrimas brotando nos olhos de Júlia, “minha filha vai ser cientista”. Mas Júlia não estava chorando ansiosa para manipular tubos de ensaio, mas sim porque, pela primeira vez, as pessoas a viram dançar e gostaram do seu balanço, elas a observavam sorrindo. A fantasia de viver como bailarina era tão real quanto agulha na pele, o salão girava tão rápido, o sangue explodia. De repente, o piano iniciou um segundo solo, os outros alunos já iam se distanciando para o final do corredor, almejando a hora do open bar, mas Júlia seguiu rodopiando. Rodopiando, e rodopiando, e rodopiando...

_ Filha, a gente precisa sair do salão. Os seus outros colegas estão esperando para entrar também.

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